7 de abril de 2014

Noé (Noah)!

> Noé (Russell Crowe) vive com a esposa Naameh (Jennifer Connelly) e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) em uma terra desolada, onde os homens perseguem e matam uns aos outros. Um dia, Noé recebe uma mensagem do Criador de que deve encontrar Matusalém (Anthony Hopkins). Durante o percurso ele acaba salvando a vida da jovem Ila (Emma Watson), que tem um ferimento grave na barriga. Ao encontrar Matusalém, Noé descobre que ele tem a tarefa de construir uma imensa arca, que abrigará os animais durante um dilúvio que acabará com a vida na Terra, de forma a que a visão do Criador possa ser, enfim, resgatada.
> São incontáveis as abordagens e aberturas que o Noé de Aronofksy podem tratar dadas a sua origem e liberdade que Darren usou na direção e no roteiro. O filme, como se sabe, é adaptação de uma das histórias mais conhecidas da humanidade presente no livro do Genêsis, na Bíblia, e no capítulo com o nome do profeta no Alcorão. Porém, antes disso, é necessário que se saiba que Noé é a adaptação de uma graphic novel fantástico escrita também por Darren Aronofsky e Ari Handel, roteiristas do filme. Ou seja, realismo é o que menos se tem, ou se busca ter no filme. E, embora a mensagem principal da história tenha sido passada com sucesso, o filme destoa em muitos aspectos a história original, o que casa perfeitamente no filme.
> A produção apresenta ao público Noé como um homem duvidoso de algumas decisões a serem tomada em sua tarefa destinada por Deus, mas sempre destemido e obediente. O roteiro mostra o profeta como poucas vezes um filme se tem corajem de mostrar: humano. Não temos aqui um Noé sempre bondoso, compassivo e que aceita tudo o é pedido sem impedimentos ou questionamentos, mas um Noé preocupado em fazer o que é o certo, independente do que seja necessário ser feito. Noé também conta com uma mensagem ecológica bem dissolvida no aguaceiro do filme. O livre arbítrio e a postura de Deus no Antigo Testamento são pontos importantes que sustentam todo o filme.

> Esse é o terceiro filme em que Russell Crowe e Jennifer Connelly trabalham juntos, e mostram mais uma vez atuações primorosas que se completam, não por necessidade, mas por potencialidade. Com efeitos sutis e trilha sonora e fotografia belíssimas, Noé se difere de todo filme já visto que aborde qualquer temática do Antigo Testamento. São muitas as semelhanças com Fonte da Vida (2006) no que toca as temáticas da existência humana, seus propósitos e suas decisões. Noé é uma produção notável por conseguir compactar com sucesso, de uma forma que consiga, pelo menos, fazer sentido ao mais cético dos homens, num mesmo filme aspectos do criacionismo e da evolução, bem como da religião e da fantasia.

5 de abril de 2014

Ela (Her)!

> Ela se passa em um futuro não muito distante, onde o escritor solitário Theodore (Joaquin Phoenix) decide comprar um novo sistema operacional desenhado para atender todas as suas necessidades. Para surpresa de Theodore, se inicia uma relação romântica entre ele e o sistema operacional, ou melhor, a deliciosa voz que tudo responde (é a de Scarlett Johansson). É uma história de amor não convencional que mistura ficção científica e romance em um doce conto que explora a natureza do amor e as formas como a tecnologia nos isola e nos conecta.
Há cerca de quatro anos li uma notícia que dizia quem um britânico havia, após declarar que o amor de sua vida era seu Playstation 2, oficialmente mudado seu nome para Sr. Playstation 2. Meses depois li que um japonês havia se casado legalmente com uma personagem de um jogo digital. A tecnologia evoluiu imensuravelmente nesses quatro anos, e o atento e sensível diretor Spike Jonze parece ter notado que os smartphones e seus sistemas operacionais cada vez mais evoluídos estão prestes a recomeçar essas conhecidas histórias de isolamento humano.
> Ela tem uma das premissas mais interessantes do cinema no que toca aos dois gêneros citados inicialmente. Em relação ao romance temos uma representação moderna de um amor platônico, não o sentido romântico do platônico, mas o sentido literal, um amor impossível. Ao mesmo tempo em que se é, digamos, compreensível que um homem em processo de depressão encontre em algo – mesmo que um objeto -, uma vontade de viver, é duro, triste e até inaceitável o fato de vermos que as relações entre pessoas humanas não supre mais as nossas necessidades humanísticas.
> Em relação à ficção científica Ela é um daqueles filmes que dá um frescor ao gênero e amplia o seu campo de extensão no cinema. Gravidade, obra do gênero com maior número de indicações ao Oscar e provável ganhador da maioria aos quais concorre – afora também ser considerado uma inovação entre as ficções científicas no cinema -, se atém à acontecimentos mais reais e científicos do que propriamente fictícios. Porém, Ela consegue ser ainda mais minimalista, sentimental e intimista, uma vez que não depende de tantos efeitos visuais e trata de uma história mais próxima da grande maioria das pessoas.
> O filme não aborda simplesmente o apego do ser humano à tecnologia, mas também a dificuldade do desapego de um relacionamento e as crescentes diferenças e questionamentos sobre a tolerância do amor. Assim que o personagem Theodore decide formar um casal com a voz de seu celular não há uma problematização sobre a sua escolha, pois todos ao seu redor já se encontram excluídos do convívio social e apegados à seus pequenos aparelhos que aparentemente os bastam. É uma história de ficção, mas bem familiar para nós.  Ela é uma das histórias de amor mais precisas para a atualidade e que não precisa de grandiosas cenas ou atuações gritantes para se mostrar um filme competente. Joaquin Phoenix mais uma vez demonstra que sua atuação mais recente é sempre melhor que a anterior e a faz em grande parte do filme, que é uma espécie de monólogo; e Scarlett Johansson consegue apenas com sua voz interpretar um dos papéis mais interessantes de sua carreira e que rendeu alguns prêmios.
> No sentido em que mostra a incansável busca do homem pela idealização da mulher, submissa e manipulável, a produção relembra outra ficção científica que foge do esperado ao gênero, o excelente As Esposas de Stepford (1975), de Bryan Forbes. Sociologia, antropologia e filosofia têm nesse filme um campo vasto de estudo, sob diferentes perspectivas e abordagens  do ser humano e de sua relação com os seus semelhantes e com a tecnologia. Ela é alerta em forma de poesia visual e drama em forma de romance.

A Menina que Roubava Livros (The Book Thief)!

> Baseado no livro best-seller homônimo, A Menina Que Roubava Livros conta a história de Liesel, uma garotinha extraordinária e corajosa, que vai viver com uma família adotiva durante a Segunda Guerra, na Alemanha. Ela aprende a ler, encorajada por sua nova família, e Max, um refugiado judeu, que é escondido embaixo no porão. Para Liesel e Max, o poder das palavras e da imaginação se tornam a única escapatória do caos que está acontecendo em volta deles. A Menina Que Roubava Livros é uma história sobre a capacidade de sobrevivência e resistência do espírito humano.
> Sempre que um filme aborda um tema delicado como a Segunda Guerra baseado na perspectiva infantil deve-se ter cuidado para que o resultado não seja demasiadamente velado, e acabe tornando superficiais as consequências da guerra por ter focado na vida de uma criança. A Menina que Roubava Livros consegue passar por cima disso, primeiramente, pela inteligência de seu roteiro. Aqueles que leram o livro no qual o filme se baseia sabe que a menina Liesel sofre com ações diretas ou indiretas da guerra em muitas partes do livro, o que deixa a história mais emocionante e real. Assim como no pequeno e memorável O Menino do Pijama Listrado (2008), de Mark Herman, o protagonismo infantil não diminui a intensidade da destruição da guerra no filme.
> Porém, apesar de sensível, o filme conta com um roteiro apressado e que, por isso, creio, não só aqueles que leram o livro se agradariam ainda fosse mais longo. O fato é que, apesar de suas duas horas de duração, A Menina que Roubava Livros não consegue apresentar e desenvolver os seus personagens da maneira que é vista no livro. Gosto sempre de frisar que, por mais que se reclame de adaptações cinematográficas, elas nunca serão tão parecidas, quanto se deseja,  com a obra original nas quais se baseiam. Primeiro porque é a leitura de um roteirista, um diretor – algumas vezes até de um estúdio – sobre aquela história; e, segundo, que são recursos semióticos diferentes, aqui no caso, um joga com as palavras e não requer um tempo determinado, e o outro joga com imagem e som e tem uma duração a se determinar.
> Mas, se percebe quando muito do que é essencial em um livro não aparece no filme. No romance do australiano Markus Zusak temos um amadurecimento mais perceptível da protagonista Liesel ao vermos a sua áspera relação com a nova mãe, Rosa, no início de sua vida com a família Hubermann, diálogos mais constantes com o menino Rudy, noites e noites de leitura com o seu pai por adoção, Hans, no porão, o seu envolvimento com as crianças de sua rua – onde são apresentados mais personagens infantis –, e uma relação maior de correspondência entre Liesel e Ilsa Hermann, a mulher do prefeito, nada disso é tão presente no filme quanto no livro. Creio que dois personagens mereciam um destaque bem maior no longa do que mereceram. São eles: a citada mulher do prefeito, Ilsa – que no livro fala sobre sua vida, da perda de seu filho e de sua paixão pelos livros –, o que deixa ainda mais claro o seu interesse por Liesel. O outro é o narrador/observador – a morte -, que guia toda a trama, e no livro torna todo o desfecho mais interessante ao usar sinestesias que tornam as suas falas nos momentos mais memoráveis do romance.
> Os jovens atores são bem competentes e conseguem segurar as suas cenas ao lado de nomes como Geoffrey Rush (Hans) e Emily Watson (Ilsa). Outro ponto de destaque é a forte trilha sonora de John Williams, responsável por dramatizar e aliviar as cenas necessárias com sua composição. Assim, A Menina que Roubava Livros é um filme que não desagrada, mas que também não satisfaz completamente ao público mais crítico – que é àquele que leu o livro. Contudo, se as suas duas horas de duração não foram suficientes para abarcar grande parte do todo conteudístico do romance, me pergunto se um filme mais longo conseguiria tratar de tudo, porém, sem se tornar maçante e cansativo. E isso me fez gostar e aceitar um pouco mais o filme de Brian Percival.

Trapaça (American Hustle)!

> Irving Rosenfeld (Christian Bale) é um grande trapaceiro, que trabalha junto com a sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Ambos são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper), infiltrando-o o perigoso e sedutor mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do candidato Carmine Polito (Jeremy Renner). Os planos parecem dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), entrar em cena e mudar as regras do jogo.
> Trapaça é o tipo de filme que conta com um enredo interessante (por ser baseado em personagens reais), uma boa premissa e muito potencial a ser desenvolvido. Porém, as escolhas do diretor não são coerentes e ajustadas, afetando o filme durante o seu desenrolar. E, infelizmente, lamente-se que o diretor  e roteirista David O. Russell tenha feito uma bagunça no conjunto da obra, a qual se resume a boas atuações, algumas referências que quase se assemelham a cópias de outros filmes e muita cafonice.
> Com uma direção bagunçada, recortada e cheia de erros de continuidade, o esforço com queTrapaça tenta tornar real toda sua construção artificial é notável. Começando com narrações do ponto de vista de diferentes personagens, o que seria uma excelente escolha o fato de não se assumir apenas um ponto de vista da história, porém cada narração explica tanto e mostra tanto que chega a subestimar a capacidade do espectador de acompanhar o simples enredo. David O. Russell tenta aplicar um clima noir e carrega em diálogos complicados e foca muito nas negociações desnecessárias para tentar amadurecer uma história até bem fácil de se entender.
> No entanto, são um tanto berrantes os figurinos, cenários e penteados – e tão exagerados –, que  faz com que algumas cenas se assemelhem a uma satírica esquete humorística do semanalSaturday Night Live. Não sei se foi intencional por parte do diretor, torço para que sim, porque algumas cenas lembram filmagens de produções de baixo custo da década de 70, o que seria uma ideia interessante caso ele resolvesse assumir essa postura em todos os momentos de suaTrapaça. Porém, existem intercalações de outras referências fílmicas nas quais David O. Russell se baseia, o que resulta na aparência de uma costura de retalhos de Scorsese e Paul Thomas Anderson, entre outros. Para ser mais específico, algumas os diálogos, o jazz simultâneo às falas entre personagens, a direção de arte, e até o jogo de câmeras remetem bastante a Os Bons Companheiros (1990), Cassino (1995) ou Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997).
> Tudo é tão caricato que, se não fossem pelas atuações convincentes de Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence e Jeremy Renner eu não acredito que o filme teria sido tão bem visto por alguns críticos e não teria conquistou os prêmios que obteve. Quanto a Bradley Cooper, em especial, acredito que devesse continuar em suas comédias que são bem mais convincentes do que seus filmes mais sérios. Eu nunca o considerei bastante talentoso ao ponto de para vê-lo ser indicado, por duas vezes consecutivas, ao Oscar – e ainda por cima por papéis tão esquecíveis.
> O que mais me incomoda nos últimos filmes de O. Russell é a sensação de repetição que ele consegue transmitir a cada novo trabalho. Chega-se a um determinado ponto de Trapaça, assim como em O Lado Bom da Vida (2012), em que o enredo simplesmente não parece sair do lugar, embora não parem de surgir situações e personagens novos. E esse sentido de estagnação do roteiro deixa o desenvolvimento narrativo bem cansativo para o espectador. Falta a Russell um roteiro vigoroso como o de O Vencedor (2011), no qual o trabalho dos atores reforçam a criação de momentos memoráveis e emocionantes – e não seja apenas uma vitrine para a exposição de seus talentos.
> Não é que eu tenha detestado cada segundo de Trapaça. Considero-o um filme com problemas estruturais, e, por isso, distante de ser a obra-prima que se têm sido dito por aí, entre os críticos admiradores do cineasta. Acredito e reforço esse ponto, que o excesso fez o filme perder muito de sua veracidade ou a expressão de realidade. Excesso de cortes, excesso de maquiagem e perucas, e excesso, acima de tudo, de referências cinematográficas. David O. Russell errou a mão entre homenagem e cópia. O título nacional pede um trocadilho merecido sobre o que esperar do filme. Trapaça é uma produção voltada para ganhar premiações. Se o público gostar, muito bem, será um sucesso de bilheteria; se não, os votantes da Academias, Associações e de festivais tratarão de prontidão para premiá-lo – como tem acontecido. E para David O. Russell, isso é o que o importa.

Uma Aventura LEGO (The LEGO Movie)!

> A aventura animada em 3D conta a história de Emmet, uma minifigura LEGO seguidora de regras e perfeitamente comum, que é erroneamente identificada como a pessoa mais extraordinária e que é a chave para salvar o mundo. Ele é recrutado para integrar uma sociedade de estranhos e diferentes e seguir uma jornada épica para deter um tirano. É uma viagem divertida, para a qual Emmet vai totalmente despreparado.
> Há uns 7 anos, o ramo da animação do cinema era dominado por dois polos aparentemente insociáveis: a parceria Disney-Pixar de um lado e a sempre insistente, e, às vezes até melhor do que a concorrência, a Dreamworks Animation Studios. As crianças esperavam ansiosas pelo meio do ano, férias estudantis e verão em Hollywood e pelo final do ano para poderem ver no cinema as grandes produções dos dois estúdios que tratavam sempre de trazer, em suas produções, histórias ótimas e roteiros criativos, aliados a uma animação de qualidade técnica cada ano mais primorosa. Porém, de lá pra cá, vários estúdios passaram a investir pesado no lucrativo setor de animação a fim de para poderem abocanhar uma parte crescente desse público. Hoje, inúmeras animações são lançadas em todos os períodos do ano – algumas delas bastante esquecíveis, é claro -, mas são as produções dos 2 estúdios que continuam a frente e conseguem provar que a época da polaridade nas animações está acabada. E que o público infantil já não é mais o alvo central, como é o caso de Uma Aventura LEGO.
> A empresa LEGO produz seus icônicos brinquedos de montagem em escala mundial desde a década de 50 e conquistou quase 7 gerações com seus divertidos puzzles que abrangiam personagens, objetos e lugares. Na década de 2000, a LEGO passou a produzir além de brinquedos, jogos digitais e filmes. Porém, os filmes que tinham os famosos personagens amarelos nada mais eram do que versões LEGO de histórias já conhecidas ou de personagens já existentes – nada tão inédito e autoral como Uma Aventura LEGO. Esta animação é recheada de metapiadas, clichês propositais e sátiras que deixam o filme até mais interessante para adolescentes e adultos do que precisamente para as crianças – mesmo porque a censura é para maiores de 14 anos.
> O afiado roteiro aborda, para os adultos, o controle social, a desumanização do homem e a falta de tolerância; e para as crianças, além de apresentar um dos brinquedos mais influentes de todos os tempos, o filme prega a tolerância e a compreensão e mostra que ainda existe muito divertimento nos brinquedos. A produção também enfatiza a importância desses, em especial propositalmente os do LEGO, diretamente no desenvolvimento da desenvoltura criativa da criança – embora essa seja uma mensagem mais voltada aos pais. Por ser da Warner, muitos dos mais conhecidos personagens do cinema e dos quadrinhos estavam liberados para serem representados no filme, e assim temos pessonagens de Harry Potter, O Senhor dos AnéisLiga da Justiça Tartarugas Ninjas, entre outros, ilustrando e dinamizando ainda mais o desenvolvimento do filme.
> É impossível, ao término de Uma Aventura LEGO, não lembrarmos dos melhores momentos da trilogia Toy Story, e não é qualquer animação produzida hoje que consegue o feito de se equiparar ao roteiro de um dos marcos da animação como a estreante animação da Pixar de 1996. Mas a mensagem às crianças e adultos, a técnica empregada e todas as piadas e referências, fazem de Uma Aventura LEGO uma das melhores animações do últimos cinco anos.

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)!

> Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que dedicou 8 anos de sua vida em localizar e, ao descobrir os interlocutores do líder do grupo terrorista, tenta convencer os seus superiores a uma ação para capturá-lo. Com isso ela participa da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar bin Laden.
> O roteirista Mark Boal provou que suas fontes são realmente boas e conseguiu um material que rendeu pano para muita manga. Primeiro porque o governo americano teve que examinar o filme do início ao fim para garantir que nada do que seria exibido ali expusesse qualquer pessoa ou organização na vida real. Segundo porque detalhes de diálogos e operações secretas foram filmados com precisão e cautela, coisa que muitos outros filmes políticos não conseguem e acabam gerando inúmeros processos – tirando o fato que as cenas de tortura por parte do Governo estadunidense não agradou a muita gente, especialmente políticos ligados ao ex-presidente Bush.
> Outra abordagem do filme, mesmo que de forma não intencional, é o feminismo, visto que a personagem Maya é recebida em sua tarefa com natural desdém pelos seus companheiros de trabalho. Mas é, por assim dizer, sua intuição que faz com que a operação de caça a Osama seja executada e se saia bem sucedida. Bigelow mostra que tem ótimas ideias de construção de cenas e que ainda se é capaz de fazer um filme rico com apenas coragem, boas fontes e empenho do elenco. Jessica Chastain está impecável em sua atuação e o todo o elenco de apoio é incrivelmente competente e promissor.
> Na parte da ideologia, A Hora Mais Escura é um filme bem mais complexo do que aparenta e que pode gerar horas de debates. É incrível ver o quanto um país pode se dedicar para ver o final da vida de uma pessoa (Bin Laden). É o ponto mais alto da banalização da vida – ou da morte. Talvez seja difícil para muitos de nós – que vivemos em um país onde não há punições como penas de morte ou fundamentalismos difusos em grandes proporções que preguem a aceitação ou a justificação de certos tipos de morte como sacrifício e etc. -, receber de maneira plausível uma vingança pura como a morte de Osama Bin Laden.
> É a longa história de se pagar morte com a morte como solução de confrontos ideológicos e comportamentais - e é um ciclo vicioso pelo qual não simpatizo -, mas que as nações envolvidas se dedicam com afinco, pois, afinal, creio na filosofia cristã de que nenhum homem tem o direito de tirar vida de outro, ou seja, tanto os EUA quanto Bin Laden são culpados, mas isso geraria um infinito ciclo na história que não resultaria em uma primeira vítima ou em um real motivo para tal banalização da morte. O fato é que o fim de Bin Laden ‘vinga’ as mortes do 11 de setembro e inúmeras outras, mas isso não muda o fato de que eles estarão para sempre mortos – fica no zero a zero.
> É um thriller que trata de obsessão, ufanismo, vingança e reflete o quão raso é o valor que a vida de um (ou de milhares) ser humano tem sob as mais diferentes perspectivas. A Hora Mais Escuraé um filme que quanto mais se disseca, mas se torna intrigante, profundo e relevante. É uma produção simples, delicada e ao mesmo tempo complexa e que deixa bons questionamentos e reflexões para o público.

Django Livre (Django Unchained)!

> Django (Jamie Foxx) é um escravo comprado pelo caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz) para auxiliá-lo em uma missão. A dupla acaba fazendo amizade e, após resolver os problemas do caçador, parte em busca por Broomhilda (Kerry Washington), esposa de Django. Para isso, eles devem enfrentar o vilão Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), proprietário da escrava.
> Django Livre é mais um divertidíssimo filme de Quentin Tarantino. Para aqueles que não gostam que resgatem o passado, acharão de cara um filme desrespeitoso para com os escravos, bem como fora Bastardos Inglórios para os nazistas e até mesmo para os judeus, porém deve-se ter em mente ao assistir um filme de Tarantino que o humor negro ali presente ‘só’ tem intuito de mostrar parte da realidade da época e satirizá-la. O diretor mais uma vez abusa de seu estilo e de sua carga de conhecimento que tem sobre os mais diferentes tipos de filme, dessa vez dos westerns, e faz uma aventura cheia de referências e homenagens.
> Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson estão espetaculares em seus papéis e são atrações à parte do filme. Porém Christoph Waltz deixa um pouco a desejar, tanto nas piadas quanto nos cacoetes, o ator parece está repetindo seu deslumbrante papel de Bastardos Inglórios só que em contextos diferentes. Na verdade tudo continua muito característico e escrachado nos filmes do diretor, como se tudo aquilo não passasse de uma caricatura. Os sotaques são gritantes, a violência é fácil e rapidamente encontrada e tudo que já se espera do estilo Tarantino de filmagem. Talvez por não ter essa atitude de seriedade é que ele fique mais divertido.
> O todo do filme me agradou bastante, apesar de alguns errinhos notáveis de continuação, uma montagem meio falha e algumas cenas irrelevantes – a cena com Jonah Hill é digna dos primeiro filmes do ator e poderia ficar apenas em uma versão de diretor do filme. Não sei se Django Livre foi feito para ser levado à serio, ou apenas para homenagear os westerns, ou uma sátira, (ou até os três juntos), apenas sei que o longa é válido por ter ótimos diálogos, tomadas longas excepcionalmente construídas e por trazer um frescor ao gênero western atualmente cansado.