5 de abril de 2014

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)!

> Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que dedicou 8 anos de sua vida em localizar e, ao descobrir os interlocutores do líder do grupo terrorista, tenta convencer os seus superiores a uma ação para capturá-lo. Com isso ela participa da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar bin Laden.
> O roteirista Mark Boal provou que suas fontes são realmente boas e conseguiu um material que rendeu pano para muita manga. Primeiro porque o governo americano teve que examinar o filme do início ao fim para garantir que nada do que seria exibido ali expusesse qualquer pessoa ou organização na vida real. Segundo porque detalhes de diálogos e operações secretas foram filmados com precisão e cautela, coisa que muitos outros filmes políticos não conseguem e acabam gerando inúmeros processos – tirando o fato que as cenas de tortura por parte do Governo estadunidense não agradou a muita gente, especialmente políticos ligados ao ex-presidente Bush.
> Outra abordagem do filme, mesmo que de forma não intencional, é o feminismo, visto que a personagem Maya é recebida em sua tarefa com natural desdém pelos seus companheiros de trabalho. Mas é, por assim dizer, sua intuição que faz com que a operação de caça a Osama seja executada e se saia bem sucedida. Bigelow mostra que tem ótimas ideias de construção de cenas e que ainda se é capaz de fazer um filme rico com apenas coragem, boas fontes e empenho do elenco. Jessica Chastain está impecável em sua atuação e o todo o elenco de apoio é incrivelmente competente e promissor.
> Na parte da ideologia, A Hora Mais Escura é um filme bem mais complexo do que aparenta e que pode gerar horas de debates. É incrível ver o quanto um país pode se dedicar para ver o final da vida de uma pessoa (Bin Laden). É o ponto mais alto da banalização da vida – ou da morte. Talvez seja difícil para muitos de nós – que vivemos em um país onde não há punições como penas de morte ou fundamentalismos difusos em grandes proporções que preguem a aceitação ou a justificação de certos tipos de morte como sacrifício e etc. -, receber de maneira plausível uma vingança pura como a morte de Osama Bin Laden.
> É a longa história de se pagar morte com a morte como solução de confrontos ideológicos e comportamentais - e é um ciclo vicioso pelo qual não simpatizo -, mas que as nações envolvidas se dedicam com afinco, pois, afinal, creio na filosofia cristã de que nenhum homem tem o direito de tirar vida de outro, ou seja, tanto os EUA quanto Bin Laden são culpados, mas isso geraria um infinito ciclo na história que não resultaria em uma primeira vítima ou em um real motivo para tal banalização da morte. O fato é que o fim de Bin Laden ‘vinga’ as mortes do 11 de setembro e inúmeras outras, mas isso não muda o fato de que eles estarão para sempre mortos – fica no zero a zero.
> É um thriller que trata de obsessão, ufanismo, vingança e reflete o quão raso é o valor que a vida de um (ou de milhares) ser humano tem sob as mais diferentes perspectivas. A Hora Mais Escuraé um filme que quanto mais se disseca, mas se torna intrigante, profundo e relevante. É uma produção simples, delicada e ao mesmo tempo complexa e que deixa bons questionamentos e reflexões para o público.

0 comentários:

Postar um comentário