5 de abril de 2014

Ela (Her)!

> Ela se passa em um futuro não muito distante, onde o escritor solitário Theodore (Joaquin Phoenix) decide comprar um novo sistema operacional desenhado para atender todas as suas necessidades. Para surpresa de Theodore, se inicia uma relação romântica entre ele e o sistema operacional, ou melhor, a deliciosa voz que tudo responde (é a de Scarlett Johansson). É uma história de amor não convencional que mistura ficção científica e romance em um doce conto que explora a natureza do amor e as formas como a tecnologia nos isola e nos conecta.
Há cerca de quatro anos li uma notícia que dizia quem um britânico havia, após declarar que o amor de sua vida era seu Playstation 2, oficialmente mudado seu nome para Sr. Playstation 2. Meses depois li que um japonês havia se casado legalmente com uma personagem de um jogo digital. A tecnologia evoluiu imensuravelmente nesses quatro anos, e o atento e sensível diretor Spike Jonze parece ter notado que os smartphones e seus sistemas operacionais cada vez mais evoluídos estão prestes a recomeçar essas conhecidas histórias de isolamento humano.
> Ela tem uma das premissas mais interessantes do cinema no que toca aos dois gêneros citados inicialmente. Em relação ao romance temos uma representação moderna de um amor platônico, não o sentido romântico do platônico, mas o sentido literal, um amor impossível. Ao mesmo tempo em que se é, digamos, compreensível que um homem em processo de depressão encontre em algo – mesmo que um objeto -, uma vontade de viver, é duro, triste e até inaceitável o fato de vermos que as relações entre pessoas humanas não supre mais as nossas necessidades humanísticas.
> Em relação à ficção científica Ela é um daqueles filmes que dá um frescor ao gênero e amplia o seu campo de extensão no cinema. Gravidade, obra do gênero com maior número de indicações ao Oscar e provável ganhador da maioria aos quais concorre – afora também ser considerado uma inovação entre as ficções científicas no cinema -, se atém à acontecimentos mais reais e científicos do que propriamente fictícios. Porém, Ela consegue ser ainda mais minimalista, sentimental e intimista, uma vez que não depende de tantos efeitos visuais e trata de uma história mais próxima da grande maioria das pessoas.
> O filme não aborda simplesmente o apego do ser humano à tecnologia, mas também a dificuldade do desapego de um relacionamento e as crescentes diferenças e questionamentos sobre a tolerância do amor. Assim que o personagem Theodore decide formar um casal com a voz de seu celular não há uma problematização sobre a sua escolha, pois todos ao seu redor já se encontram excluídos do convívio social e apegados à seus pequenos aparelhos que aparentemente os bastam. É uma história de ficção, mas bem familiar para nós.  Ela é uma das histórias de amor mais precisas para a atualidade e que não precisa de grandiosas cenas ou atuações gritantes para se mostrar um filme competente. Joaquin Phoenix mais uma vez demonstra que sua atuação mais recente é sempre melhor que a anterior e a faz em grande parte do filme, que é uma espécie de monólogo; e Scarlett Johansson consegue apenas com sua voz interpretar um dos papéis mais interessantes de sua carreira e que rendeu alguns prêmios.
> No sentido em que mostra a incansável busca do homem pela idealização da mulher, submissa e manipulável, a produção relembra outra ficção científica que foge do esperado ao gênero, o excelente As Esposas de Stepford (1975), de Bryan Forbes. Sociologia, antropologia e filosofia têm nesse filme um campo vasto de estudo, sob diferentes perspectivas e abordagens  do ser humano e de sua relação com os seus semelhantes e com a tecnologia. Ela é alerta em forma de poesia visual e drama em forma de romance.

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