5 de abril de 2014

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)!

> Adaptação do livro homônimo de memórias de Jordan Belfort. Belfort, ele mesmo um corrupto corretor de títulos da bolsa norte-americana que enganava promissores e pequenos acionistas, entrou em decadência nos anos 90. A sua história envolve o uso de drogas e crimes do colarinho branco.
> Scorsese volta sua zona de conforto: filmes com homens corruptos e decadentes, excesso de palavrões e bastante ironia, e, ainda assim, com uma agilidade com a qual nunca trabalhara antes. O resultado é algo novo. Penso, na verdade, que não exista nenhum outro cineasta da atualidade que consiga filmar tão bem a ruína moral quanto ele. Afinal, Scorsese é um homem obcecado, e encontrou um ator como nenhum outro que já fez tantos personagens assim, do jeito que ele queria, como Leonardo DiCaprio – o último tinha sido o recente O Grande Gatsby (2013).  E o bom de DiCaprio é que ele sempre consegue distinguir as diferentes abordagens de seus decadentes personagens, refazendo-os ao gosto de Scorsese sempre em papéis notáveis. Oportunista como um formador profissional de coaching e comicamente desagradável, DiCapiro consegue se entranhar na vida e em sua essência materialista. Não só ele está impagável no filme, mas também todos os inúmeros coadjuvantes com os quais contracena. E entre eles, os principais os destaques ficam com Jonah Hill, Matthew McConaughey, Kyle Chandler e a estonteante Margot Robbie.
> O Lobo de Wall Street mostra o quão baixo o homem capitalista pode ser na busca egocêntrica por ascensão, dinheiro e poder. E aí estão dois dos pontos que mais vem sendo criticado no filme: a maneira engraçada com que são tratadas as fraudes às pessoas esperançosas que buscaram em investimentos uma melhor condição de vida; e a abordagem heroica que o desprezível protagonista recebe. A facilidade trazida pelo roubo acarreta numa facilidade: a de acesso a todo tipo degradante de vício, retratada sem pudor, como o excesso de bebidas, de sexo e o doentio uso de drogas – de Belfort e dos seus comparsas de crime. E para esses homens, a liberdade que tinham não era suficiente: para fazer o que faziam sem serem repreendidos – inicialmente – transformou seus locais de trabalho em um verdadeiro circo de seus prazeres, onde orgias e uso de drogas se confundiam com os seus negócios.
> Este filme é um daqueles em que o enredo é tão absurdo, que pode parecer exagero do diretor Martin Scorsese em reconstituí-lo,, mas os investigadores do FBI que conseguiram parar com as ações criminosas de Belfort confirmaram, através das pessoas que se envolviam com ele. Quase todos os inacreditáveis relatos que, mais tarde, o fraudador viria a escrever em seu livro e, agora, aparecem no filme (nunca houve a confirmação da presença de animais nos escritórios ou o “arremesso” de anões, que sempre foram respeitados quando iam ao lugar de trabalho) integram uma realidade.
> Muitas são as análises sociológicas e filosóficas que O Lobo de Wall Street pode render com as suas ironias e o pesado humor negro. A responsabilidade e a coragem de fazer um filme que mexe no que há de mais podre na economia dos EUA, e ainda tratar tudo como uma grande piada, fazem do longa uma produção notável. É um filme que conta com todos os elementos apelativos para ser deplorável, mas quando se vê sua real intenção crítica de Scorsese, entende-se o porquê do filme ter sido feito. Sobre a parte técnica, o que deixa a desejar é apenas a edição de cenas que conta com uma montagem picotada. No mais, um dos filmes mais notáveis das últimas décadas.

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