5 de abril de 2014

Trapaça (American Hustle)!

> Irving Rosenfeld (Christian Bale) é um grande trapaceiro, que trabalha junto com a sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Ambos são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper), infiltrando-o o perigoso e sedutor mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do candidato Carmine Polito (Jeremy Renner). Os planos parecem dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), entrar em cena e mudar as regras do jogo.
> Trapaça é o tipo de filme que conta com um enredo interessante (por ser baseado em personagens reais), uma boa premissa e muito potencial a ser desenvolvido. Porém, as escolhas do diretor não são coerentes e ajustadas, afetando o filme durante o seu desenrolar. E, infelizmente, lamente-se que o diretor  e roteirista David O. Russell tenha feito uma bagunça no conjunto da obra, a qual se resume a boas atuações, algumas referências que quase se assemelham a cópias de outros filmes e muita cafonice.
> Com uma direção bagunçada, recortada e cheia de erros de continuidade, o esforço com queTrapaça tenta tornar real toda sua construção artificial é notável. Começando com narrações do ponto de vista de diferentes personagens, o que seria uma excelente escolha o fato de não se assumir apenas um ponto de vista da história, porém cada narração explica tanto e mostra tanto que chega a subestimar a capacidade do espectador de acompanhar o simples enredo. David O. Russell tenta aplicar um clima noir e carrega em diálogos complicados e foca muito nas negociações desnecessárias para tentar amadurecer uma história até bem fácil de se entender.
> No entanto, são um tanto berrantes os figurinos, cenários e penteados – e tão exagerados –, que  faz com que algumas cenas se assemelhem a uma satírica esquete humorística do semanalSaturday Night Live. Não sei se foi intencional por parte do diretor, torço para que sim, porque algumas cenas lembram filmagens de produções de baixo custo da década de 70, o que seria uma ideia interessante caso ele resolvesse assumir essa postura em todos os momentos de suaTrapaça. Porém, existem intercalações de outras referências fílmicas nas quais David O. Russell se baseia, o que resulta na aparência de uma costura de retalhos de Scorsese e Paul Thomas Anderson, entre outros. Para ser mais específico, algumas os diálogos, o jazz simultâneo às falas entre personagens, a direção de arte, e até o jogo de câmeras remetem bastante a Os Bons Companheiros (1990), Cassino (1995) ou Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997).
> Tudo é tão caricato que, se não fossem pelas atuações convincentes de Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence e Jeremy Renner eu não acredito que o filme teria sido tão bem visto por alguns críticos e não teria conquistou os prêmios que obteve. Quanto a Bradley Cooper, em especial, acredito que devesse continuar em suas comédias que são bem mais convincentes do que seus filmes mais sérios. Eu nunca o considerei bastante talentoso ao ponto de para vê-lo ser indicado, por duas vezes consecutivas, ao Oscar – e ainda por cima por papéis tão esquecíveis.
> O que mais me incomoda nos últimos filmes de O. Russell é a sensação de repetição que ele consegue transmitir a cada novo trabalho. Chega-se a um determinado ponto de Trapaça, assim como em O Lado Bom da Vida (2012), em que o enredo simplesmente não parece sair do lugar, embora não parem de surgir situações e personagens novos. E esse sentido de estagnação do roteiro deixa o desenvolvimento narrativo bem cansativo para o espectador. Falta a Russell um roteiro vigoroso como o de O Vencedor (2011), no qual o trabalho dos atores reforçam a criação de momentos memoráveis e emocionantes – e não seja apenas uma vitrine para a exposição de seus talentos.
> Não é que eu tenha detestado cada segundo de Trapaça. Considero-o um filme com problemas estruturais, e, por isso, distante de ser a obra-prima que se têm sido dito por aí, entre os críticos admiradores do cineasta. Acredito e reforço esse ponto, que o excesso fez o filme perder muito de sua veracidade ou a expressão de realidade. Excesso de cortes, excesso de maquiagem e perucas, e excesso, acima de tudo, de referências cinematográficas. David O. Russell errou a mão entre homenagem e cópia. O título nacional pede um trocadilho merecido sobre o que esperar do filme. Trapaça é uma produção voltada para ganhar premiações. Se o público gostar, muito bem, será um sucesso de bilheteria; se não, os votantes da Academias, Associações e de festivais tratarão de prontidão para premiá-lo – como tem acontecido. E para David O. Russell, isso é o que o importa.

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